Sono ruim aumenta o risco de demência na velhice

07 de junho, 2021

Sono ruim aumenta o risco de demência na velhice

A Associação Alzheimer Portugal define demência como “termo utilizado para descrever os sintomas de um grupo de doenças que causam um declínio progressivo no funcionamento da pessoa e que descreve a perda de memória, capacidade intelectual, raciocínio, competências sociais e alterações das reações emocionais normais”

A demência, com os conhecimentos médicos atuais, é uma condição irreversível que inclui doenças como o Alzheimer, demência frontotemporal e demência por corpos de Lewy. Todas elas têm uma relação com o sono, ou melhor, com a falta dele.

Entendendo a relação entre o sono e a demência

A associação entre o sono e a demência sempre impôs à ciência um questionamento ao estilo “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha”. Quem veio primeiro, o sono ruim ou a demência?

Uma das bases dessa dúvida é que a grande maioria dos casos de demência aparecem depois dos 65 anos de idade, fase na qual o ritmo circadiano e o cronotipo sofrem mudanças naturais, consequentemente alterando os padrões de sono. Algumas dessas mudanças são o caráter mais matutino (antecipação do horário de dormir e acordar), maior demora no tempo que se leva para dormir (latência do sono), descanso mais fragmentado e menos sono de ondas lentas e REM, resultado dessa fragmentação. 

Essas são mudanças pelas quais todas as pessoas vão passando ao longo da vida, porém são mais intensas naqueles com demência. Chama atenção sobretudo a perda dos sonos profundos, etapas da noite responsáveis pela restauração de corpo e mente. ` uma das bases fundamentais para explicar a relação entre dormir e as doenças.

Há também uma explicação adicional. O núcleo supraquiasmático (NSQ), localizado no hipotálamo, é a parte do cérebro que responde aos gatilhos que indicam para o resto do corpo quando devemos despertar e quando dormir. Pessoas com Alzheimer, o tipo de demência mais predominante, normalmente têm células do NSQ danificadas e menos atividade nessa parte do cérebro e, por isso, apresentam mais dificuldade em seguir o padrão de sono “tradicional”. 

Acredita-se que esses dados também explicariam, em partes, porque esses pacientes apresentam quadros de agressividade durante a noite.

Nada disso explica, porém, se o sono ruim causa demência ou se a demência causa o sono ruim. Até agora.

Dormir pouco aumenta o risco de demência

A ciência finalmente está conseguindo responder “quem veio primeiro“. A resposta é o sono ruim, como apontam duas investigações científicas recentes.

A primeira delas é da Escola de Medicina de Harvard. Publicada em fevereiro de 2021, ela analisou os dados de quase 3 mil pessoas para entender a relação entre relatos pessoais de sono e o desenvolvimento de quadros da doença cinco anos depois. Aqueles que dormiram menos de cinco horas por noite dobraram a probabilidade de desenvolver demência se comparados àqueles que dormiram mais.

O segundo estudo é ainda mais específico e mais recente, de abril de 2021. Os cientistas conseguiram concluir que dormir seis horas ou menos por noite depois dos 50 anos aumenta em 30% a probabilidade do diagnóstico de demência depois. A idade média na qual o diagnóstico foi feito é de 77 anos. 

Para chegar a esse dado, especialistas europeus examinaram os dados de mais de 8 mil pessoas, de 1985 a 2016. Para referência, eles consideraram um sono “normal” aquele que durava mais de sete horas por noite. Além disso, alguns participantes usaram actígrafos para conferir se os dados informados eram condizentes com a realidade.

Mais uma vez vale ressaltar que as dificuldades do sono na meia idade são naturais para essa faixa etária, mas não por isso devemos simplesmente deixar acontecer. Enquanto alguns fatores são incontroláveis, como a genética, as pessoas precisam se esforçar para controlar os demais. A higiene do sono é ainda mais importante.

Os impactos do sono no Mal de Alzheimer

Ainda faltam explicações definitivas sobre o porquê do sono ruim aumentar as probabilidades do risco de demência, mas existem algumas hipóteses sobre isso.

Em um post no Blog de Saúde de Harvard, o Dr. Andrew E. Budson, professor de neurologia na universidade e chefe de Neurologia Cognitiva e Comportamental no Sistema de Saúde de Assuntos de Veteranos em Boston, aponta que uma das possíveis razões está relacionada à deposição da proteína beta-amilóide. 

Conhecida como “proteína do Alzheimer”, é ela que se agrupa para formar “placas”, o primeiro sinal da doença no cérebro. 

Quando estamos acordados, fabricamos uma quantidade da beta-amilóide. Já durante a noite, as células cerebrais e suas conexões diminuem de tamanho para “abrir espaço” para que essa e outras substâncias que se acumulam ao longo do dia sejam eliminadas.

A teoria apresentada é que, ao não dormir o suficiente, uma pessoa não teria tempo para eliminar a quantidade adequada beta-amilóide. Ela, então, continuaria se acumulando e consequentemente formando as placas ao longo do tempo.

Vale o lembrete que a intenção deste conteúdo não é alarmar, mas sim alertar e mostrar como a ciência, cada dia mais, tem evidências sobre a importância do sono para a manutenção da saúde e prevenção de doenças futuras. Não existe vida saudável sem sono. 

No caso do Alzheimer e outros tipos de demência, dormir mal é apenas um dos fatores de risco que potencializam a probabilidade do diagnóstico. Outros fatores que aumentam as chances da doença são idade elevada, sexo biológico (mulheres desenvolvem a doença mais do que homens), histórico familiar e genético, lesões cerebrais, Síndrome de Down e Doenças Cardiovasculares.

Em caso de dúvidas, consulte o seu médico de confiança. Boa noite.

Compartilhar artigo

Leia também

Arrow
Arrow
Faça parte da comunidade Persono
Enviaremos somente conteúdos relevantes para contribuir com a qualidade do seu sono e não encher a sua caixa de email