Sono e Obesidade Infantil

02 de junho, 2021

Sono e Obesidade Infantil

A relação entre o sono e a manutenção do peso saudável é algo estudado há muito tempo. Mas hoje vamos falar de um público diferente: as crianças. Mais especificamente sobre a ligação que existe entre o sono e a obesidade infantil. 

3 de junho marca o dia Conscientização Sobre Obesidade Mórbida Infantil, dia para que pais, médicos e educadores discutam o assunto e entendam como podem ajudar as crianças a terem uma vida mais saudável. 

A ciência mostra que há um aumento do consumo de calorias quando não dormimos bem, já que temos mais dificuldades de controlar os impulsos. Mas não é só isso: também há alterações químicas no corpo, como o aumento da produção grelina, conhecida como hormônio da fome. E como isso funciona para as crianças?

O sono das crianças

Crianças e adultos dormem de maneiras muito diferentes, afinal seus organismos têm necessidades próprias e é preciso entender essas peculiaridades. 

A diferença mais visível no sono de acordo com a fase da vida é a duração. Enquanto para os adultos o recomendado é dormir entre seis e nove horas, para as crianças a flutuação é bastante maior. Até os três meses de vida, por exemplo, é aconselhado que um bebê durma de 14 a 17 horas. Depois, até o primeiro ano, a quantidade já cai para 12 a 15 horas.

A duração do sono recomendado vai diminuindo pouco a pouco ao longo da infância e da adolescência até, mais ou menos, os 17 anos. Nessa fase, a pessoa precisa de um descanso quase similar ao dos adultos, de 8 a 10 horas de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA

A estrutura do ciclo também é diferente nas crianças. Elas têm muito mais sono profundo não-REM nas primeiras horas da noite, por isso dormem tão “pesado” assim que caem no sono. É apenas no início da vida escolar que as fases do sono vão se aproximando à dos adultos. Essa transição acontece entre os seis e 12 anos.

Como a falta de sono aumenta o risco de obesidade infantil

Sem meias palavras: a perda de sono dobra o risco de ganho de peso nas crianças, o que pode levar a casos de obesidade infantil. Mas a explicação é um pouco mais complexa do que simplesmente dizer “não dormir engorda”. O processo é mais longo do que isso.

Assim como acontece com os adultos, crianças que não dormem as horas suficientes sofrem alterações hormonais que, aí sim, levam ao ganho de peso. Além do aumento da produção de grelina, já mencionado, a falta de sono também altera a produção da insulina e da leptina, hormônios que ajudam na regulação da sensação de fome.

E por falar na insulina, há evidências de que o sono curto e/ou ruim aumenta a resistência a ela em crianças e adolescentes, o que aumenta o risco de esse grupo desenvolver diabetes do tipo 2.

Um estudo conduzido por médicos portugueses foi além e conseguiu encontrar uma correlação entre o sobrepeso e a obesidade infantil e o comprometimento do sono não-REM, considerado um marcador da qualidade do sono. A conclusão deste projeto é taxativa: “precisamos encontrar uma estratégia para providenciar sono de ondas lentas em duração adequada para conseguirmos reduzir a obesidade epidêmica entre os mais novos“.

Efeitos a longo prazo 

As consequências de dormir pouco nos primeiros anos de vida não é algo que se deixa para trás na vida adulta. Muito pelo contrário.

A falta de sono na infância não faz crescer apenas o risco de obesidade infantil como também mais adiante na vida. Crianças com noites ruins tendem a apresentar um IMC – Índice de Massa Corporal mais alto quando chegam à vida adulta. Cada hora média de sono perdida na infância, aumenta em 50% o risco de obesidade depois dos 30 anos.

A conclusão é de um estudo neozelandês divulgado também pela Academia Americana de Pediatria e pela Universidade de Harvard. Os pesquisadores passaram 32 anos analisando o sono de um grupo de mais de 1000 participantes nascidos entre 1972 e 1973.

Talvez seja a hora de mudar a frase de “você é o que você come” para “você é o que você dorme (e dormia desde que era criança)”.

Como ajudar as crianças a dormir melhor

Se a correlação entre a falta de sono e a obesidade infantil é tão evidente, o que fazer para romper esse círculo vicioso? Aqui vão quatro dicas para ajudar seu filho a dormir melhor:

1. Higiene do sono não é apenas para adultos. Esse é um hábito que quanto antes começar, melhor. No caso das crianças, alguns dos rituais que podem ser implementados são o fim do uso de eletrônicos no mínimo uma hora antes de ir para a cama, um banho morno e a leitura de um livro na penumbra. Todos também são oportunidades para criar um vínculo intrafamiliar.

2. Seja o exemplo, afinal fica mais difícil ensinar uma criança a dormir melhor se você for do tipo: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

3. Mudança no horário escolar, sobretudo para os pré-adolescentes e adolescentes. Os mais jovens costumam ter um cronotipo mais vespertino que não combina com aulas às 7 da manhã. Já existem campanhas em todo o mundo, inclusive no Brasil, pelo atraso da entrada na escola

4. A regularidade também é importante para as crianças. Por mais que seja tentador deixar as crianças dormirem até bem tarde de fim de semana, até para que os pais tenham um pouco de tranquilidade, essa não é uma prática recomendada. Quanto mais regular o sono, melhor. 

Vale sempre lembrar que a obesidade infantil e também a adulta não têm como causa única o sono ruim. Entram em questão ainda fatores como a genética, o ambiente em que se vive, comportamentos da mãe durante a gestação, saúde emocional e, claro, a alimentação, entre outros. 

Também não vale a pena usar o “medo” para incentivar as crianças a dormirem ou comerem melhor. Os riscos de que elas acabem desenvolvendo um distúrbio alimentar nunca vale a pena. E mais do que isso: uma criança não é melhor ou pior que a outra por ser “gordinha”.

Vamos desenvolver nas nossas crianças um sono saudável, uma alimentação saudável e uma saúde mental. Elas merecem um mundo sem gordofobia.

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