Entrevista: Medicina do sono hoje

01 de outubro, 2020

Entrevista: Medicina do sono hoje

O mundo está redescobrindo a importância do dormir bem.

A cada dia, a ciência avança no conhecimento do sono, suas funções, seus mecanismos e os riscos de sua privação.

Fomos ouvir uma das maiores especialistas brasileiras no assunto, a neurologista Andrea Bacelar, atual presidente da Associação Brasileira do Sono.

Nesta entrevista, a médica nos conta um pouco sobre os mais recentes avanços e descobertas da medicina e da tecnologia para fazer você dormir bem e viver melhor.

– No site da sua clínica, você afirma que ao atuar também como presidente da Associação Brasileira do Sono, acredita estar cumprindo a sua missão. Que missão é essa e o que a faz acreditar que tem conseguido cumpri-la?

Eu acho que nasci para ser médica. Meu pai e mãe são neurologistas e os três filhos deles também são neurologistas. Acho que está no nosso gene a medicina.

Já a medicina do sono entrou na minha vida há 20 anos. Em 2000, eu fui para São Paulo, no Instituto do Sono,  que era o único local no Brasil, que formava profissionais nessa área. Já existia naquela época a Sociedade Brasileira do Sono, que depois se transformou em Associação Brasileira do Sono, e eu logo me engajei à entidade.

Porque além do lado acadêmico, científico, de mestrado e doutorado, a Associação sempre prestou o serviço de informar a população e também de formar outros profissionais não-médicos acreditando nessa multidisciplinaridade do sono.

– E como tem sido o trabalho da Associação Brasileira do Sono na conscientização da população?

As iniciativas da Associação Brasileira do Sono neste sentido vêm a cada ano obtendo um alcance cada vez mais expressivo.

No último Congresso Mundial do Sono, em Vancouver, tivemos a honra de ter a nossa Semana do Sono citada como uma das melhores  iniciativas de conscientização sobre o sono em todo o mundo, mostrando que o sono é um fenômeno involuntário e fundamental, vital para a vida das pessoas.

Elas precisam saber que não se pode se abster do sono, de querer dormir menos, de se privar de sono.

Hoje, a literatura científica já define claramente as graves consequências do débito de sono para os vários aspectos da nossa saúde.

Por isso, é preciso que a população realmente esteja consciente da importância e necessidade do sono. O indivíduo precisa entender que aquelas queixas diurnas podem, sim, ter uma associação direta com a qualidade ruim ou a quantidade de sono menor. E, no momento em que se estabelece essa correlação, busca-se ajuda precocemente e, com o tratamento adequado, pode-se evitar uma série de graves doenças.

– Hoje, que tipo de médico pode tratar esses transtornos do sono?

A nossa proposta na ABSono é informar para a população, através do nosso site, quais médicos estão certificados em Medicina do Sono.

Hoje, a medicina do sono é área de atuação de seis especialidades médicas: Neurologia, Otorrinolaringologia, Pneumologia, Clínica Médica, Pediatria e Psiquiatria, mas as demais especialidades também são nosso alvo. Afinal, o paciente que procura outra especialidade, que não estas seis, também passa quase um terço da vida dormindo e portanto, pode ter problema de sono.

Qualquer médico, independente da especialidade, deve procurar saber como vai o sono do paciente e buscar correlações com seu problema clínico. Saber se o sono pode contribuir negativamente para a sua queixa. Saber quais são as comorbidades que possam existir além da queixa do sono: no estômago, no intestino, no cérebro, nas glândulas…

– Na sua opinião, nós temos conseguido evoluir nessa conscientização?

Eu acho que a mídia tem nos ajudado bastante.

Já tivemos tantos repórteres e tantas entrevistas nos últimos cinco ou dez anos falando sobre sono, que a população hoje já entende um pouco mais sobre a importância do sono.

Há 20 anos, quando a gente falava para um paciente que ele teria que fazer um exame e dormir em um laboratório do sono, ele se assustava. Agora, ele já chega falando “Doutor, eu quero fazer uma polissonografia”.

Isto é a força da difusão da informação. É a informação chegando ao público leigo e ele entendendo essa importância do sono.

Por isso eu acho que, nesse caminho, estamos cumprindo a nossa missão.

– Então, a gente pode dizer que estamos vivendo a Era de Ouro da medicina do sono?

Acho que só poderemos falar em Era de Ouro quando todos os médicos entenderem sobre sono. Mas já existem alguns marcos importantes nesse avanço.

Primeiro, a globalização: hoje todos os países já têm essa especialidade médica. A World Sleep Society tem todos os continentes representados e, atualmente, represento a América Latina.

Isso tem uma importância muito grande porque conseguimos unificar os conceitos. Hoje já existe a Classificação Internacional dos Transtornos do Sono. Seja um especialista em medicina do sono, um psiquiatra ou um clínico, qualquer médico, de qualquer continente, que pensar em fazer um diagnóstico correto de um paciente com um determinado transtorno do sono, será feito utilizando-se as mesmas publicações cientificas e, portanto, o mesmo diagnóstico será dado.

E isto faz com que inclusive as pesquisas também sejam uniformizadas. Quando falamos sobre a prevalência de uma doença em um determinado país, hoje temos certeza de que ela foi mensurada com as mesmas ferramentas no mundo inteiro. E isso faz com que a ciência cresça no mundo.

Agora, nesta época de Covid, por exemplo, o mundo todo está correndo atrás de uma vacina. É uma união global de estudos científicos, para que a humanidade se beneficie, o mais rápido possível, de uma vacina. É essa união que vem ocorrendo na medicina do sono.

Leia também as demais partes da entrevista sobre sono e tecnologia e sobre sono e saúde.

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